Altieres Rohr | 06/07/2008 - 23h06
Notícia do IDG News Service: clientes do provedor de internet banda larga OCN, do Japão, terão, a partir do início de agosto, um “limite” de tráfego upload de 30GB por dia, para um total de 900GB por mês. Não há limites de download. E, antes do internauta ter a conexão suspensa, ele será avisado que excedeu o limite.
A pergunta mais óbvia nesse caso é: se estão impondo este limite, é óbvio que existem clientes que usam ainda mais que isso. Mas que tipo de aplicativo utiliza tanto tráfego?
Depois que a rede de P2P WinMX — que foi muito popular no país — acabou, japoneses fizeram um sucessor chamado Winny (”WinNY”, M->N, X->Y). Além de ter poderosos recursos de anonimidade, o Winny funciona de forma muito diferente dos programas P2P que conhecemos aqui no ocidente: ele possui downloads automáticos.
Primeiro é definido uma lista de palavras-chave. Estas definem a lista de arquivos que será obtida na rede. Depois são definidas as palavras de download, de fato: se uma destas palavras estiver nos arquivos obtidos na lista originada pela busca das palavras-chave, o arquivo será baixado sem a necessidade de confirmação. Quanto mais baixar e enviar, mais arquivos serão retornados na busca pelas palavras chave, o que aumenta chances do arquivo que realmente se quer (ou arquivos relacionados) serem encontrados e baixados.
Isso significa que o cliente P2P baixa e envia conteúdo da rede sem parar. Não existe a necessidade de compartilhar arquivos específicos como nos P2P daqui. Em vez disso, os arquivos ficam em um cache, o que significa que, depois de baixado, é possível apagar os arquivos (no caso de músicas, até trocar as tags) e o arquivo original baixado continuará na rede, garantindo assim a disponibilidade. Em outras palavras, sempre haverá duas cópias de um arquivo, o que significa que não apenas o uso da rede, mas o uso do disco é muito maior.
Os downloads automáticos são um paraíso para worms. Eles se espalham sem problemas, pois o worm não precisa ser executado, nem especificamente baixado, para continuar disponível na rede. E, mesmo depois de apagado do disco, o worm ainda fica no cache do programa. No caso do Winny, o worm mais comum chama-se Antinny.
O Winny não recebe novas atualizações e sua última versão possui uma grave falha de segurança. Mas o programa já ganhou dois sucessores: um se chama Share e é agora um P2P muito comum no Japão. O sucessor mais recente chama-se Perfect Dark. Os autores destes, para não terem o mesmo destino do criador do Winny — que foi preso –, são anônimos.
A velocidade mínima de upload no Perfect Dark é 100KB/s . Isso, com B maiúsculo mesmo — mais do que a grande maioria das conexões brasileiras permite no upload. Já o tamanho mínimo do cache — arquivos que ficam no HD mesmo depois de apagados para serem servidos na rede — é 40GB. Ou seja, nada de HDs pequenos.
Já sabendo como eles usam as poderosas conexões que possuem, fica porém uma dúvida: que segredo o Japão tem para conseguir impor limites diários em conexões baratas (46 dólares, de acordo com o IDG) que nós brasileiros mal conseguiríamos atingir em um mês inteiro no uso ininterrupto de nossas conexões? Meu upload é de 512kbps, efetivamente uns 50KB/s, e conseguiria enviar no máximo 4GB de diariamente, praticamente 1/8 do “limite” japonês. E minha conexão, convertendo o preço em dólares da conexão de lá, custa o mesmo.
Muito se ouve a respeito da extensão territorial brasileira — que isto dificulta e encarece a atualização e a manutenção da infra-estrutura. Porém, mesmo nas metrópoles, onde a densidade demográfica não é um problema, não é possível encontrar conexões domésticas que enviem dados nesta velocidade, muito menos nesta faixa de preço.
Vale notar que não afirmo aqui que todas as conexões no Japão fazem uso destes programas. Citei-os como exemplos de aplicativos japoneses que fazem uso de toda a capacidade de transmissão que existe somente lá e em alguns poucos outros países. A reportagem do IDG, linkada acima, no entanto, diz que o principal objetivo do “limite” é impedir que utilizadores de programas P2P causem problemas na rede para os demais.